São nove horas da manhã de um sábado. O céu meio encoberto por nuvens, com um azul claro de fundo e um sol tímido se escondendo. O tempo está frio com uma fina garoa e ventos que dão a sensação de que faz -10º C.
Enquanto a grande maioria das pessoas dorme – ou está indo dormir àquela hora – uma fração muito pequena, que algum desavisado (ou ignorante mesmo) poderia até dizer “insignificante”, de pessoas acordaram algumas horas antes para um dia muito importante. Importante para o município em que moram, para elas, para um grupo de oito “forasteiros” da grande metrópole de São Paulo.
Alguns não ligam para a política, outros apenas reclamam, porém, há pessoas que se interessam, reclamam e agem. Isto é, praticam a tão falada DEMOCRACIA que hoje perdeu o seu poder quando dita em voz alta. Hoje em dia, democracia virou praticamente uma piada. Perdeu seu significado, sua importância e, conseqüentemente, nós todos perdemos o ânimo para lutar por ela.
Porém, naquele sábado do meio de agosto, sem saber direito no que iria dar de cara, fui, ainda sonolenta para uma tal de “audiência pública”. Quando li isso no cartaz colado na parede da pizzaria, achei improvável que alguém fosse. (Abre-se aqui um grande parênteses para deixarmos clara a ignorância da pessoa que vos escreve).
Pois bem, chegando ao colégio onde seria feita a audiência, comecei a ver ônibus escolares, vans, carros e pessoas a pé entrando no portão. Meu espanto começou aí.
Entramos. Ao passar pelo portão, já era possível ver dezenas de pessoas. Aliás, centenas. Preparando-se para aquele dia. Preparando-se para fazer a democracia acontecer, sem nem sequer saber da importância e do acontecimento inédito que era aquilo mesmo já estando em 2009, centenas e centenas de anos após a criação da democracia pelos atenienses.
Fiquei simplesmente maravilhada com tudo aquilo, no mínimo. Não sabia o que falar, não sabia o que pensar direito. Fiquei um pouco desnorteada até. Senti, naquele momento, que é possível mudar as coisas. Tive a sensação de que tudo era possível, desde que junto a mais pessoas – é muito difícil fazer as coisas acontecerem sozinho, além de se perder muito da alegria que é compartilhar toda a experiência…
Como voluntária, acabei sendo relatora de um dos treze grupos separados por bairros – que deveriam discutir o plano orçamentário do próximo ano e fazer reivindicações, pedir mudanças e dar sugestões. No começo, a ansiedade me tomou. Não por menos. Eu era alguém que fora passar o fim de semana lá e que acabou entrando nessa audiência quase que por acaso. Fiquei pensando “gente, democracia! Poder do povo! O povo veio porque quis, por interesse em mudar o que está sendo feito! Não posso acabar com tudo isso… Imagina se eu anoto alguma coisa errada?”
No final, tudo deu certo. Anotamos tudo o que foi dito e, depois do almoço, cada grupo apresentou suas reivindicações/sugestões para a Câmara dos Vereadores e para os outros grupos. Todos falavam, todos escutavam. Ainda eram abertas três chances de intervenção depois de cada grupo, para quem quisesse complementar, corrigir, acrescentar algo.
A cada minuto que passava mais incrível era estar naquele lugar, naquela hora com aquelas pessoas. Não mudaria nada. Sabe aqueles momentos em que tudo está no lugar? Momentos que você sente uma sensação de serenidade, tranqüilidade e ao mesmo tempo uma energia de força e animação? Pois é. Foi mais ou menos assim… Não consigo explicar direito. Tinha que se estar lá para entender o que eu falo.
A única coisa que posso afirmar sem preocupação de erro é que, naquele sábado, num município que possui menos habitantes que o bairro em que moro em São Paulo, brotou uma semente de esperança em mim. Tinha perdido um pouco a fé em tudo – tanto nos homens como nas instituições que nós criamos. Mas, depois desse dia, sinto que algo despertou novamente dentro de mim e que não vai adormecer de novo tão cedo. Participar de tudo aquilo, observar e ouvir tudo, só fez crescer a vontade de fazer algo. E só confirmou uma idéia que eu tinha de que é possível sim, fazer a democracia acontecer.
Fernanda Yne Goto (aluna do 4º sem de CSO)
O poder de um povo – agosto 30th, 2009
4 Comments
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4 Responses to “O poder de um povo”
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Fê, fiquei emocionado com seu depoimento. Isso nos faz ter certeza de que projetos como este são fundamentais para consolidar o espírito de cidadania e participação em vocês, jovens estudantes que estão prestes a enveredar pelo mundo profissional. Parabéns.
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Hau! Excelente. Devemos dar maior exposiçao a textos como estes. Uma das dimensões mais importantes do terceiro grau é proporcionar aos jovens a oportunidade de desenvolvimento desta dimensão cidadã. Parabéns, Fernanda e todos da Social!
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O texto está excelente… Gostaria de saber se posso usar em meu blog.. Farei referencia de onde retirei.. Muito obrigado e abs! deputado federal
