Leva capa e galocha – agosto 1st, 2009

Foi a única coisa que consegui me lembrar antes de deixar a vida de um milhão de coisas e entrar na van.

Como se prepara para uma viagem dessas? Dá até pra prever o tempo, as possíveis ziquiziras que nosso organismo frágil de CO2 pode atravessar, mas não dá pra prever a experiência humana de tudo isso.

Dava pra colocar na mochila também alguns desejos, expectativas. O que seria desse encontro? Nem falo apenas do encontro com agrofloresteiros (tente falar isso rápido!), quilombolas, pequenos agricultores, que já tive o privilégio de encontrar na minha estrada. Pensava nesse encontro de fluxos: alunos na ESPM e a realidade local. Duas correntes distintas, percursos tão diferentes, cruzando-se na Barra do (rio)Turvo com o Pardo.

Chegamos, a equipe de filmagem, seis dias depois da equipe da ESPM Social – “a turma da capa amarela”- mofados de tanta chuva, já imersos no cotidiano do município. Através de seus olhos, seguindo seu rastro, conheci também as pessoas amadas, alquimistas sem se saber assim, que transformaram em ouro a experiência cinza das grandes cidades. A força da terra subindo por mãos fortes, pelas marcas do campo, a pele castigada emoldurando olhos brilhantes. Esse é seu Pedro, quilombola. Também existiram Nilce e Branco (jovens idealistas articuladíssimos dessas comunidades) ou “Gilmar da Vinci”, apelidado pela equipe, que construiu sua casa com alicerces de um novo pensamento: em simbiose total com a natureza. Gilmar eu só conheci por olhos emprestados, dos que lá estiveram, mas imagino que a palavra revolução tenha mudado de cor depois desse encontro. Ficou meio verde, tingida de invenção. O que dizer de alguém que reinventa uma roda pra gerar sua própria energia?

E aqui estavam essas e outras pessoas encantadas.

E aqui aportamos nós, pra “ajudar a dar acesso”. Não é isso, geração de renda? Acesso às necessidades, não é isso que a renda traz? E descobrimos um acesso tão fácil, portas tão destrancadas, sorrisos tão francos e casas tão abertas, que a visão de realidade balançou: Afinal, o que é o mundo? É esse ou aquele? Ou aquele outro? E, divididos em quatro grupos, cada qual em seu campo de pesquisa, os grupos se debatiam com uma verdade extraordinária: não existe só uma verdade. E mesmo dentro desse universo de seres maravilhosos e natureza exuberante também há conflitos, também há divergências, intolerâncias e falta de diálogo. E quem está certo? Que lado escolher? Quem é bom ou mal? Onde estão os limites conhecidos? Como julgar? Pra que julgar?

E olha só, nesse ponto o rio se cruza. Nesse delta, que engraçado! Será que somos, então, da mesma espécie?

Tão difícil colocar-se na pele do outro. Tão fácil aceitar os sorrisos, mas muito duro olhar para as máculas, e nelas também ver nossa intolerância, nossa inflexibilidade, nossa arrogância e dificuldade de diálogo. Entorta o estômago, dá enjôo, dá vertigem, sacode a terra firme das crenças tão sedimentadas – elas sacodem como a ponte pênsil acima do rio. Mas mesmo com medo, se fez a passagem. Daí a beleza da experiência: desse confronto, rompeu-se um limite de alguns. E coisa nova brotou.

Quarta à noite fizemos uma roda para que cada um falasse do estar aqui. Ainda bem que a câmera gravou, porque não dá pra falar do gosto de chocolate. Nem pra ver, pra quem nunca provou, mas vou fazer um esforço. Vou repetir algo que falei lá: nesse momento da minha vida, ando perseguindo minha fé, ela se esconde às vezes, talvez pra me atizicar o andar. Aqui encontrei um rastro, apurei o faro, achei uma trilha, e descobri que a fé é um recurso natural renovável. Porque nenhuma dureza resiste ao contato com os quilombolas, mostrando que a gente pode ser um tiquinho mais gente que o “normal”. Porque nenhum espírito trágico resiste à visão de uma agrofloresta. Porque , na roda com os alunos, nenhum ceticismo resiste à cena de tantos corações estremecidos, de ver desabrochar um sentido de vida recém-revelado. “Persigam seu sonho, porque eu achei o meu” Não é coisa boa de se ouvir?

Agradeço estar aqui, vivendo no outro o espelho de minhas mudanças. Agradeço por ter ganhado mais uma vez o presente de uma percepção: a natureza mutável e evoluível da nossa condição que, em solo fértil, pode subir em direção à luz. Por isso não gosto de adjetivos. Nem “acomodados” (julgamento constante dos moradores em relação ao pessoal a si próprios), nem “embolhados” (dos alunos, sobre si mesmos). Tomando emprestado do Gildo, o câmera da equipe, sua expressão, ver meninos de apartamento explodirem a fronteira dos cubículos é acreditar que não terminamos na nossa pele. Tomara que essa experiência ajude a expurgar o câncer de nossos dias – “vão tomar o que é meu!”- e pegue carona no sentimento profundo de coletividade que as pessoas daqui nos presentearam. Que, ao despertar desse sonho, se perceba que não há do que despertar. Foi tudo real pra valer, e valeu.

Hoje estamos voltando. Será tudo isso uma ilha de felicidade na ditadura da realidade única? Para onde irá o curso do rio, agora dividido em vinte afluentes cheios de idéias e esperanças?

Cláudia Pucci, professora da ESPM.

1 Comment
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One Response to “Leva capa e galocha

  1. Tatiana disse:

    Claudinha,

    Obrigada por trazer nas palavras muito do que sentimos lá, sentimos hoje e continuamos tentando entender.

    Essa experiência foi, sem dúvida, muito além do que todos nós poderíamos imaginar .

    A certeza que eu tenho é que ” as outras margens do rio” têm um pouquinho de cada um, percebendo os outros. Que do encontro dos dois rios há uma terceira margem.
    E isso ninguém tira da gente.

    beijo grande!

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