Segunda-feira chuvosa, 11:00 am no QG (laboratório de uma escola)
Quantas coisas aconteceram desde a última vez que postamos. Para mim estes últimos 4 dias já valeram a viagem inteira, tanto pelo lado emocional como físico. Já que meus colegas vão demorar pra ler isso, (aqui só os alunos preferidos podem usar a internet =] ) pessoalmente acho que todos estão já estão um caco. Brincadeiras a parte, venho aqui para tentar traduzir pra vocês algumas sensações coletivas do nosso grupo.
Como a noite anterior deu a dica, hoje amanheceu chovendo novamente. O bom é que estamos fazendo jus a todos os cobertores, roupas de frio, capa de chuva e GALOCHA, calçado que eu pensei ser meramente “optativo”. No caso, uma vez que se chega em Barra do Turvo, você percebe que a única opção na eventualidade de não trazer uma galocha é decidir usar o mesmo tênis-meia-calça molhados todos os dias ou comprar uma. A chuva aqui não está dando trégua, mas a esperança é a última que morre, aliás, tenho até medo de tempo bom, aí que a galera não ia sossegar mesmo. Saibam que mesmo com esse tempinho-suicídio, Barra do Turvo continua sendo um dos lugares mais lindos que eu já vi.
Das muitas conversas que tivemos desde que chegamos, diria que o contato com as comunidades quilombolas no sábado foi o que mais me marcou. Fomos junto com o figura Eudon (cujo nome já ganhou diversas variações como Eldon, Euler, Eudo, Endon), secretário do turismo e cultura, a uma reunião das 4 principais comunidades de Barra do Turvo, sediada em Ribeirão Grande. Após o receio inicial de estarmos atrapalhando, “chegamos junto” e sentamos na roda como ouvintes de diversos temas. Fiquei particularmente encantada com Nilce, moradora de Ribeirão Grande e condutora da reunião, que representa uma das lideranças (mesmo que não oficial, ela passou o cargo de presidente da associação adiante) mais fortes que eu já vi. Com seu jeito “briguento e faladeiro” como ela mesma se diz, propunha discussões, explicava intenções de projetos para a comunidade, cobrava decisões das lideranças dos quilombos e no meio disso tudo ainda dava atenção pro Jonas e o Bio, seus adoráveis filhinhos, que passavam correndo no meio da sala.
Poderia escrever páginas e páginas sobre essa reunião (e provavelmente vou escrever no relatório), mas deixo aqui minha profunda admiração pela consciência dessas pessoas acerca de questões como a importância da organização e união entre as comunidades, a importância do líder representando uma coletividade e o bem-comum, a preservação de suas tradições sem deixarem de incorporar novas formas de produção e por fim a valorização de sua identidade quilombola, fundamental para a auto-estima de uma comunidade muito rica. Depois de tudo que já ouvi até agora, parece que nós é que estamos precisando de uma “consultoria”.
Amanda Gandolpho CSOS1 (a caminho do segundo)
