Archive for agosto, 2009

 

O poder de um povo – 30. agosto, 2009

São nove horas da manhã de um sábado. O céu meio encoberto por nuvens, com um azul claro de fundo e um sol tímido se escondendo. O tempo está frio com uma fina garoa e ventos que dão a sensação de que faz -10º C.
Enquanto a grande maioria das pessoas dorme – ou está indo dormir àquela hora – uma fração muito pequena, que algum desavisado (ou ignorante mesmo) poderia até dizer “insignificante”, de pessoas acordaram algumas horas antes para um dia muito importante. Importante para o município em que moram, para elas, para um grupo de oito “forasteiros” da grande metrópole de São Paulo.
Alguns não ligam para a política, outros apenas reclamam, porém, há pessoas que se interessam, reclamam e agem. Isto é, praticam a tão falada DEMOCRACIA que hoje perdeu o seu poder quando dita em voz alta. Hoje em dia, democracia virou praticamente uma piada. Perdeu seu significado, sua importância e, conseqüentemente, nós todos perdemos o ânimo para lutar por ela.
Porém, naquele sábado do meio de agosto, sem saber direito no que iria dar de cara, fui, ainda sonolenta para uma tal de “audiência pública”. Quando li isso no cartaz colado na parede da pizzaria, achei improvável que alguém fosse. (Abre-se aqui um grande parênteses para deixarmos clara a ignorância da pessoa que vos escreve).
Pois bem, chegando ao colégio onde seria feita a audiência, comecei a ver ônibus escolares, vans, carros e pessoas a pé entrando no portão. Meu espanto começou aí.
Entramos. Ao passar pelo portão, já era possível ver dezenas de pessoas. Aliás, centenas. Preparando-se para aquele dia. Preparando-se para fazer a democracia acontecer, sem nem sequer saber da importância e do acontecimento inédito que era aquilo mesmo já estando em 2009, centenas e centenas de anos após a criação da democracia pelos atenienses.
Fiquei simplesmente maravilhada com tudo aquilo, no mínimo. Não sabia o que falar, não sabia o que pensar direito. Fiquei um pouco desnorteada até. Senti, naquele momento, que é possível mudar as coisas. Tive a sensação de que tudo era possível, desde que junto a mais pessoas – é muito difícil fazer as coisas acontecerem sozinho, além de se perder muito da alegria que é compartilhar toda a experiência…
Como voluntária, acabei sendo relatora de um dos treze grupos separados por bairros – que deveriam discutir o plano orçamentário do próximo ano e fazer reivindicações, pedir mudanças e dar sugestões. No começo, a ansiedade me tomou. Não por menos. Eu era alguém que fora passar o fim de semana lá e que acabou entrando nessa audiência quase que por acaso. Fiquei pensando “gente, democracia! Poder do povo! O povo veio porque quis, por interesse em mudar o que está sendo feito! Não posso acabar com tudo isso… Imagina se eu anoto alguma coisa errada?”
No final, tudo deu certo. Anotamos tudo o que foi dito e, depois do almoço, cada grupo apresentou suas reivindicações/sugestões para a Câmara dos Vereadores e para os outros grupos. Todos falavam, todos escutavam. Ainda eram abertas três chances de intervenção depois de cada grupo, para quem quisesse complementar, corrigir, acrescentar algo.
A cada minuto que passava mais incrível era estar naquele lugar, naquela hora com aquelas pessoas. Não mudaria nada. Sabe aqueles momentos em que tudo está no lugar? Momentos que você sente uma sensação de serenidade, tranqüilidade e ao mesmo tempo uma energia de força e animação? Pois é. Foi mais ou menos assim… Não consigo explicar direito. Tinha que se estar lá para entender o que eu falo.
A única coisa que posso afirmar sem preocupação de erro é que, naquele sábado, num município que possui menos habitantes que o bairro em que moro em São Paulo, brotou uma semente de esperança em mim. Tinha perdido um pouco a fé em tudo – tanto nos homens como nas instituições que nós criamos. Mas, depois desse dia, sinto que algo despertou novamente dentro de mim e que não vai adormecer de novo tão cedo. Participar de tudo aquilo, observar e ouvir tudo, só fez crescer a vontade de fazer algo. E só confirmou uma idéia que eu tinha de que é possível sim, fazer a democracia acontecer.
Fernanda Yne Goto (aluna do 4º sem de CSO)

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Cartas do retorno – 11. agosto, 2009

É… a experiência parece que marcou mesmo. Aqui estão transcritas, com as devidas autorizações de seus autores, alguns trechos das cartas que os alunos veicularam após o regresso dessa marcante viagem:

Tatiaha Fischer, em 01 de agosto:
“Bru e Pessoal,
Só queria dizer rapidinho que foi um prazer enorme estar com vocês estes dias.
Mesmo, mesmo. Eu já estou quase saindo da ESPM e não esperava que fosse encontrar pessoas tão bacanas ainda, sabe, achei que já tinha esgotado o estoque… Como o Bruno falou, me dá um medinho também que a gente se distancie, então vamos tentar não perder contato?
hahaha.. não que esses meios midiáticos sejam a garantia de não nos perdemos, maaaaas, já é um começo…
Eu me comprometo em fazer uma planilha com os dados da galera, depois que todo mundo enviar por email, ok?
É difícil chegar… o meu jantar ontem foi sozinha e extremamente silencioso…
A cidade que eu tinha saudade, já me cansou um pouco…
alguém topa voltar comigo?
Beijos
Tati

Ana Cláudia Weber, em 01 de agosto:
Olá Pessoal,
queria dizer também que a experiência foi maravilhosa, adorei conhecer vocês e espero que o nosso relacionamento só aumente com o passar do tempo.
Chegar a São Paulo realmente foi estranho: o cheiro de floresta se transformou em cheiro de fumaça de carro, que lindo! ahhahaha… e o pior, depois de chegar a São Paulo, ainda fiz uma pequenha viagem a São José, tomei um banho, capotei e só acordei agora pouco, pronta para voltar a outra (ou outras) realidades.

João Paulo Escobar, em 02 de agosto:
Que coisa bonita ja ver tantos e-mails de tantas pessoas da viagem! Cheguei numa nostalgia absurda e a fase da chegada alienigena em casa esta no pico! Tambem nao sei dizer exatamente o que esta estranho, mas que esta eh um fato obvio. Estou com saudades ate mesmo do banheiro do meu quarto com chuveiro quebrado, privada entupida e da igreja evangelica que exorcisava membros da populacao local diariamente em alto e claro som! Gravei um video de um culto, alias. Achei importante. Esta logo antes de 8 videos do monologo de 4 horas do guru agroflorestal Nelson. Se voce estiver afim de uma viagem mistica e espiritual pra la de maluca, se liga nessa! Ha ha, brincadeira, eu odeio mandar videos e fotos por internet, entao perderam, playboys. Quem quiser vai ter que me visitar e pegar pessoalmente! Mua ha ha. Nossa, eu preciso colocar um lembrete no meu notebook para nao esquecer de sentar pra enviar emails quando estiver com tanto sono como agora. Enfim, estou ansioso para ver todos e confirmo presenca no jantar. Nao vamos perder contato tao cedo se depender de mim!
Um beijo, barradoturvenses!
(…) p.s: nao tem acento nesse notebook, mas eu juro que fiz minha licao de casa de gramatica no ensino fundamental. se alguem quiser, pode inserir a acentuacao correta e encaminhar esse email de volta pra mim! pode ser divertido! eu tambem nao reli pra ver se algo estava escrito errado… se voce acabar a acentuacao e ainda estiver com sede de portugues, arrisca! quero ver algum email reclamando de sp depois dessa sugestao. nao precisa agradecer, galera. a vida eh isso mesmo! a gente tem que se ajudar pra vencer as duras barreiras as quais fomos impostos.
p.s 2: cooperafloresteiros, eu nao tenho nenhum arquivo dos relatorios que estavamos fazendo! ficou tudo no pc da ana claudia… ou da lau, nao lembro agora. de qualquer jeito, me mandem tudo que voces tiverem, meninas! por favor!
sucesso.

Alice Mascena Barbosa, em 02 de agosto:
Oi Gente! Saudades!
Nunca pensei que fosse reclamar da falta de barulho. Dormir num quarto que parece enorme (após 4 dias aconchegantes e super íntimos no quarto 19) sem pessoas entrando a cada momento e outras (Tati) cantando no meu ouvido está realmente difícil.
Quando eu voltei, um membro da família perguntou: “E aí, como foi a sua imersão na pobreza?”… Depois de passar 10 dias conhecendo aquelas pessoas tão diferentes, cheias de histórias pra contar e hospitalidade, não é assim que eu me senti, “imergindo na pobreza.”
Mas como a gente já tinha previsto, explicar a viagem pra quem não foi é bem difícil.
Beijos e abraços para todos!
obs: alguém mais continua acordando as 7h30 da manhã? estou achando isso muito triste…

Ornella Maggi, em 02 de agosto
GALERAA ! QUE SAUDADESSSS !
Nao esperava tantos e-mails assim logo de cara.. fiquei tao acostumada a nao entrar na internet que ate me assustei quando entrei no e-mail e vi que eu tinha 80 novos e-mails!!! Entre eles Grupo da Social e Grupo da Viagem, basicamente. Mas foi uma delicia ler tudo e saber que nao sou so eu que estou me sentindo um pouco fora deste mundo. Explicar para as pessoas o que foi a minha/nossa viagem para a Barra do Turvo e aonde fica este lugar que ninguem conhece? Impossivel. Ja desisti. Como eu ja havia dito, so nos sabemos o que foi e mesmo tentando contar para as pessoas, ninguem vai entender. As fotos podem mostrar algumas coisas, os videos tbm, mas nada como vivenciar tudo o que nos vivenciamos. Nao tenho palavras pra agradecer voces pela companhia, carinho, dedicacao, amizade e por todos os momentos que passamos juntos. Cada um de voces contribuiu para que essa viagem se torne inesquecivel. VOCES SAO DEMAIS!
Se cuidem e ate mais pessoal!
Beijos, Ori

Paula Yanasse, em 02 agosto:
Olá Pessoal!
Primeiramente gostaria de agradecer a todos pela companhia e que ter passado esses dias com vcs foi um aprendizado enorme e, com certeza, uma experiência única que vai ficar muito marcada em mim. Agora…quanto a volta, foi e ainda é muito estranho…é realmente muito difícil contar o que vivenciamos por lá…mas por outro lado acredito que seria muito bom se todos pudessem passar ou provar o que sentimos…(…)
Bom domingo gente!
Um beijo e um abraço para todos,
Paula

Fernanda Goto, em 02 agosto:
Faaala minha gente!
Foi estranho acordar (tarde), descer a escada e não ver aquele monte de gente bonita de sorriso aberto e bem humorada tomando café às 7h da manhã! Ainda não me acostumei com o barulho de SP, com a velocidade que as pessoas caminham por você e a falta de chuva… Não sei, é estranho estar de volta, mas ao mesmo tempo, é bom. Bom pra gente tomar mesmo esse choque de realidade, pra não esquecer que a menos de 4 horas de São Paulo tem gente vivendo em regiões mais calmas, com natureza por todos os lados, sem o stress de uma metrópole, porém, em condições precárias. Enfim, mais conversas filosóficas e besteiras guardarei para o jantar.
Já que entrei nesse assunto, o jantar está mais que confirmado pra mim! Dia 13 estamos aí para rever a todos e continuar a integração desse grupo que tive a sorte de conhecer em meio as férias depois de um semestre desgastante e de muito mau humor e raiva da faculdade (aproveitei para desabafar, prontofalei.). Gostei muito de todos, alguns consegui conhecer um pouco mais, outros ainda quero conhecer e, quem sabe, começar uma amizade!
Besos a todos, Fernanda

Juliana Matos, em 03 de agosto:
Pessoal,
Não estou lidando bem com essa coisa de voltar pra Babilônia! E ainda não me decidi se isso e bom ou ruim!! Fui ao shopping ontem e fiquei arrepiada ao me dar conta da velocidade em que gira essa roda viva, que aceitamos sem maiores problemas. O pior é que me pareceu estar mais rápida do que nunca – o que teve como efeito uma bela dor de estomago… Pela primeira vez na historia da humanidade, Julianna Matos com sua mãe a tiracolo, não comprou NADA. E por questões de princípios!! Ficar dez dias infiltrada numa proposta de mundo totalmente nova pra mim (em termos de vivencia), lendo sobre cooperativismo e convivendo com pessoas visionárias, pra não dizer fundamentalistas (e, por conseguinte, demasiado envolventes), não poderia me deixar ilesa… Bons tempos em que meu sonho era ser CEO! O mais preocupante é que estou sentindo muita falta do meio do mato!! Me mandei pra Uberaba e amanha vou dar um pulo na fazenda pra dar uma analisada na área e ver as possibilidades de inicio da Agruber! Jota, entro em contato assim que tiver maiores informações! A vontade de seguir por outras paragens, que não as incentivadas pela ESPM, aumenta mais a cada dia! Estou repensando todo o meu plano para os próximos 23 anos (este numero não e uma hipérbole, sabe como é, coisa de virginiana!!). De qualquer forma, toda a experiência só confirmou o que estava de certa forma adormecido, apenas precisando de um empurrãozinho final pra despertar! Como podem perceber são 4:00 da manha e eu só consigo pensar e pensar e pensar no que é que eu vou fazer com tanta informação! De fato foi uma experiência incrível! Foi um enorme prazer conhecer todos vocês, alguns melhor outros nem tanto, mas ainda temos tempo! Isto é, se eu não queimar todo o meu dinheiro e for pro Alasca ahahahhahahahha Vamos ver o que o futuro nos reserva! Até o jantar!
Espero ansiosamente,
Ju

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Primeiras impressões, quando mal sabíamos como essa viagem iria nos marcar… – 7. agosto, 2009

Últimas semanas das férias do mês de julho, aquele friozinho gostoso, acompanhado pelo barulho da chuva, que sempre nos incentiva a dormir até a hora do almoço. Mas, a cada segundo que eu insistisse em manter meus olhos fechados o despertador tocava mais alto. Por sinal, maldita a hora que eu escolhi esse toque para me acordar! E, talvez pela primeira vez no ano, levantei ao invés de colocar o despertador no modo soneca.
Sair do quarto, com o dia ainda amanhecendo, de galocha e capa de chuva abóbora já foi uma novidade, surpreendente foi saber, depois de uma “chamadinha” do Prof. Fred, que sete e dez da manhã já era um horário muito tarde para eu ainda não ter descido para tomar café.
Café tomando, ao sair para a rua já foi fácil achar o restante dos alunos que estavam prontos: todos na rua de galochas e capa de chuva. Assim, às sete e meia, cada grupo foi para a reunião que tinha marcado. E lá foi o meu grupo (carinhosamente apelidado, por nós, de “Chuleta, Bisteca & CIA”) para a reunião na Casa do Agricultor. Como nós estamos responsáveis em desenvolver projetos que irão auxiliar os produtos agrícolas locais, há a necessidade de reconhecer um pouco mais a realidade local antes de pensarmos em qualquer coisa. Fomos atendidos pelo Fernando, diretor de Agricultura da Secretária de Desenvolvimento da cidade, e pelo Sr. Luiz. Bem abertos, recebemos muitas informações, algumas delas “jogadas”, que permitiram que nós começássemos a perceber a realidade local, mesmo ficando um pouco confuso em algumas horas. Seriam sete, oito ou quatro associações?
Logo depois encontramos com o Cacá, presidente da associação Pró-Leite, já pela conversa podemos perceber que o Cacá, provavelmente, cursou uma universidade. Não só pela forma dele falar, mas pelos termos: “demanda-oferta”, “livro caixa”, etc. Mal sabíamos o contraste que seria a conversa com o Sr. Pedro, à tarde. A grande dificuldade que notamos na Pró-Leite é a gestão da associação.
De tarde, seguimos pela estrada da cidade até um quilombo. No caminho paramos em uma vendinha simples, do Sr. Geraldo e logo depois partimos para a casa do Sr. Pedro, que para todo o grupo foi a parte mais emocionante do dia. O medo inicial que tivemos do pit-bull, que tomava conta da casa, foi logo quebrado pelo o sorriso do Seu Pedro. Com sua barba presa com elástico, e uma alegria contagiante, foi impossível recusar o convite para entrar em sua casa. Uma casinha simples, chão e parede de cimento. Do lado da geladeira desligada, um altar com várias imagens prendiam a nossa atenção. A Tati segurava a sua vontade de tirar a foto, Gustavo e eu tomávamos, sem ter gostado, o chá de amendoim que a esposa do Sr. Pedro nos ofereceu, enquanto a Paula observava cada coisa que estava escrita na parede.
A forma simples, e entusiasmada, que o Sr. Pedro falava prendia a nossa atenção, de certa forma é impossível escrever, agora de noite, a emoção que foi fazer aquela visita. Sair daquela casa com sensação que poderíamos ser uma solução para melhorar a vida simples, e de certa forma precária, do Seu Pedro era inevitável. Em apenas 24 horas saímos de um extremo e fomos para outro, ontem acordávamos no conforto da nossa casa em São Paulo e hoje tentávamos compreender como aquela família conseguia nos receber com tanto sorrisos naquela casa.
Não sabemos se, realmente, poderemos ser uma solução para o Seu Pedro, não sabemos se iremos fazer outras visitas como esta, mas, com certeza, nossa viagem para Barra do Turvo já está valendo à pena. Mesmo que a emoção de alguns não fosse perceptível, sabemos que esta experiência tocou cada um de uma forma diferente. E, vamos indo, hoje foi o primeiro dia que acordamos na cidade, e outros nove nos esperam.
Renato R. L. Nalini – RI

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Leva capa e galocha – 1. agosto, 2009

Foi a única coisa que consegui me lembrar antes de deixar a vida de um milhão de coisas e entrar na van.

Como se prepara para uma viagem dessas? Dá até pra prever o tempo, as possíveis ziquiziras que nosso organismo frágil de CO2 pode atravessar, mas não dá pra prever a experiência humana de tudo isso.

Dava pra colocar na mochila também alguns desejos, expectativas. O que seria desse encontro? Nem falo apenas do encontro com agrofloresteiros (tente falar isso rápido!), quilombolas, pequenos agricultores, que já tive o privilégio de encontrar na minha estrada. Pensava nesse encontro de fluxos: alunos na ESPM e a realidade local. Duas correntes distintas, percursos tão diferentes, cruzando-se na Barra do (rio)Turvo com o Pardo.

Chegamos, a equipe de filmagem, seis dias depois da equipe da ESPM Social – “a turma da capa amarela”- mofados de tanta chuva, já imersos no cotidiano do município. Através de seus olhos, seguindo seu rastro, conheci também as pessoas amadas, alquimistas sem se saber assim, que transformaram em ouro a experiência cinza das grandes cidades. A força da terra subindo por mãos fortes, pelas marcas do campo, a pele castigada emoldurando olhos brilhantes. Esse é seu Pedro, quilombola. Também existiram Nilce e Branco (jovens idealistas articuladíssimos dessas comunidades) ou “Gilmar da Vinci”, apelidado pela equipe, que construiu sua casa com alicerces de um novo pensamento: em simbiose total com a natureza. Gilmar eu só conheci por olhos emprestados, dos que lá estiveram, mas imagino que a palavra revolução tenha mudado de cor depois desse encontro. Ficou meio verde, tingida de invenção. O que dizer de alguém que reinventa uma roda pra gerar sua própria energia?

E aqui estavam essas e outras pessoas encantadas.

E aqui aportamos nós, pra “ajudar a dar acesso”. Não é isso, geração de renda? Acesso às necessidades, não é isso que a renda traz? E descobrimos um acesso tão fácil, portas tão destrancadas, sorrisos tão francos e casas tão abertas, que a visão de realidade balançou: Afinal, o que é o mundo? É esse ou aquele? Ou aquele outro? E, divididos em quatro grupos, cada qual em seu campo de pesquisa, os grupos se debatiam com uma verdade extraordinária: não existe só uma verdade. E mesmo dentro desse universo de seres maravilhosos e natureza exuberante também há conflitos, também há divergências, intolerâncias e falta de diálogo. E quem está certo? Que lado escolher? Quem é bom ou mal? Onde estão os limites conhecidos? Como julgar? Pra que julgar?

E olha só, nesse ponto o rio se cruza. Nesse delta, que engraçado! Será que somos, então, da mesma espécie?

Tão difícil colocar-se na pele do outro. Tão fácil aceitar os sorrisos, mas muito duro olhar para as máculas, e nelas também ver nossa intolerância, nossa inflexibilidade, nossa arrogância e dificuldade de diálogo. Entorta o estômago, dá enjôo, dá vertigem, sacode a terra firme das crenças tão sedimentadas – elas sacodem como a ponte pênsil acima do rio. Mas mesmo com medo, se fez a passagem. Daí a beleza da experiência: desse confronto, rompeu-se um limite de alguns. E coisa nova brotou.

Quarta à noite fizemos uma roda para que cada um falasse do estar aqui. Ainda bem que a câmera gravou, porque não dá pra falar do gosto de chocolate. Nem pra ver, pra quem nunca provou, mas vou fazer um esforço. Vou repetir algo que falei lá: nesse momento da minha vida, ando perseguindo minha fé, ela se esconde às vezes, talvez pra me atizicar o andar. Aqui encontrei um rastro, apurei o faro, achei uma trilha, e descobri que a fé é um recurso natural renovável. Porque nenhuma dureza resiste ao contato com os quilombolas, mostrando que a gente pode ser um tiquinho mais gente que o “normal”. Porque nenhum espírito trágico resiste à visão de uma agrofloresta. Porque , na roda com os alunos, nenhum ceticismo resiste à cena de tantos corações estremecidos, de ver desabrochar um sentido de vida recém-revelado. “Persigam seu sonho, porque eu achei o meu” Não é coisa boa de se ouvir?

Agradeço estar aqui, vivendo no outro o espelho de minhas mudanças. Agradeço por ter ganhado mais uma vez o presente de uma percepção: a natureza mutável e evoluível da nossa condição que, em solo fértil, pode subir em direção à luz. Por isso não gosto de adjetivos. Nem “acomodados” (julgamento constante dos moradores em relação ao pessoal a si próprios), nem “embolhados” (dos alunos, sobre si mesmos). Tomando emprestado do Gildo, o câmera da equipe, sua expressão, ver meninos de apartamento explodirem a fronteira dos cubículos é acreditar que não terminamos na nossa pele. Tomara que essa experiência ajude a expurgar o câncer de nossos dias – “vão tomar o que é meu!”- e pegue carona no sentimento profundo de coletividade que as pessoas daqui nos presentearam. Que, ao despertar desse sonho, se perceba que não há do que despertar. Foi tudo real pra valer, e valeu.

Hoje estamos voltando. Será tudo isso uma ilha de felicidade na ditadura da realidade única? Para onde irá o curso do rio, agora dividido em vinte afluentes cheios de idéias e esperanças?

Cláudia Pucci, professora da ESPM.

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