O Centro de Apoio a Doentes de Aids (Cada) está de portas fechadas, distribuindo apenas cestas básicas para as pessoas cadastradas. A instituição, que chegou a dar abrigo para 80 e 100 pessoas, diz que não tem como funcionar sem os funcionários do Cidadão 2000, ONG que terá seu convênio definitivamente extinto pela administração municipal de Goiânia no próximo dia 31. Com isso, soropositivos de todo o Estado que fazem tratamento em Goiânia estariam sem uma opção de hospedagem na Capital.
De acordo com coordenador-geral do Cada, Brasílio Rezende, os dois funcionários que atuavam ali eram fundamentais para o funcionamento da instituição. “Eram cozinheira e motorista. Agora não temos como cozinhar e nem mesmo transportar as pessoas que vinham aqui para se tratar”.
A Prefeitura se defende e aponta dois motivos para suspender o fornecimento de funcionários para o centro de apoio. “O Cada fica no município de Aparecida e eu não posso jogar recursos de Goiânia lá. Além disso, os funcionários estavam irregulares, por falta de convênios”, disse o secretário de Assistência Social, Walter Silva.
Brasílio questiona as justificativas do secretário. “A sede, onde distribuímos preservativos e atendemos os soropositivos, fica na Avenida Anhanguera, em Goiânia. A casa é na Avenida Anápolis, em Aparecida, mas porque foi uma doação de um portador de HIV e poderia muito bem ser em Goiânia”. Sobre a questão do convênio, ele diz que já solicitou o pedido várias vezes à secretaria, mas sem resultados. “Eles não fizeram convênio desde o primeiro mandato de Iris. Nós tentamos várias vezes, mas eles não quiseram. Na última audiência na Câmara, por exemplo, ele (Walter) garantiu aos vereadores que iria ajudar o Cada. Mandei uma solicitação e não me responderam até agora”. Ele comenta que em nenhum momento a Prefeitura teria questionado a presença dos funcionários da ONG no Centro de Apoio. “Eles nunca fizeram nada (sobre o fato dos funcionários estarem irregulares) e nem mesmo informaram que iriam retirá-los”.
A ausência de “hóspedes”, que se iniciou em fevereiro, foi quebrada esta semana, quando o presidente-fundador da antiga Casa Renascer, também de apoio a soropositivos, Zilmar José Santana , 37, pediu para passar alguns dias lá após voltar de uma clínica de tratamento. “Ontem (terça-feira) dormiram duas pessoas aqui (no Cada), uma de Uruaçu e outra de Jussara. Eles só puderam ficar porque eu tenho experiência como cozinheiro e pude fazer as refeições para eles comerem”, diz Zilmar.
O rapaz, que também trabalha como voluntário no Hospital de Doenças Tropicais (HDT), diz que muitos soropositivos gostariam de ir para o Cada, sem possibilidade para isso. “Tem dezenas de pessoas que dizem querer vir, mas por causa da falta de funcionários, não tem como. O ambiente no Cada está muito triste”.
Sem possibilidade de passar a noite no local, algumas pessoas procuram o Condomínio Solidariedade, no Jardim Europa. “Sem o Cada, eles estão buscando o condomínio”, diz a diretora do local, Rosália Santos Lima. Apesar disso, comenta ela, o número de atendimento não foi alterado. “A rotatividade é muito grande, então o número de vagas ocupadas se mantém mais ou menos o mesmo”. Ontem, apenas um soropositivo que frequentava o Cada estava hospedado no local, que é mantido pela Organização das Voluntárias de Goiás (OVG). Uma das justificativas pela baixa procura de ex-frequentadores do Cada seria a maior rigidez das normas do condomínio. Brasílio não soube informar para onde estariam indo as demais pessoas que procuravam o centro.
ÚLTIMOS CONTRATOS VENCEM NO FIM DO MÊS
Os funcionários da ONG Cidadão 2000, criada para coordenar e executar as ações voltadas para infância e adolescência em Goiânia em 1993, foram surpreendidos em novembro de 2008 com a notícia de que a Prefeitura não renovaria o convênio que garantia a existência da organização. Em vez disso, centralizaria todas as atividades na Secretaria de Assistência Social (Semas).
Com os últimos contratos vencendo no dia 31, outros 450 já haviam sido demitidos, membros da sociedade civil, do Ministério Público e da Câmara Municipal acreditam que o atendimento será afetado e a qualidade dos serviços de assistência social da Prefeitura deve cair. A administração municipal nega e acredita que a contratação temporária de funcionários por meio de processo seletivo e um posterior concurso público devem resolver o problema.
Noticia publicada em 19/03/2009, por Pablo Santos do Jornal Hoje.
